Morfologia: Verdades e Lendas

Autor: Fúlvio Lucietto

Publicação: 31-08-2017

A criação em cativeiro voltada para o melhoramento genético, exige, por parte do criador, o desenvolvimento da acuidade visual na direção de se apropriar da capacidade de identificação clara das características físicas que se possam mostrar desejáveis, ou não, no árduo caminho em busca da elaboração e desenvolvimento de exemplares de alta qualidade. Contudo, a simples identificação visual de tais características numa ave, embora seja condição imprescindível para que seja possível a obtenção de resultados satisfatórios, não se mostra suficiente para garantir o êxito técnico do criador-melhorador.

Mais complexo do que a simples identificação visual das características desejáveis num bom exemplar, é a possibilidade da observação, análise e conclusão técnicas a respeito da maneira como esses aspetos físicos se possam comportar na hereditariedade, ou seja, de tentarmos medir o quanto eles se mostram transmissíveis na descendência, ou não.

Ao contrário do olhar, através do qual podemos contemplar a diversidade de cores possíveis no periquito ondulado cujo universo genético já foi devidamente identificado e descrito quanto ao seu comportamento hereditário a partir da fundamentação nas leis de segregação de fatores de Mendel, a análise dos aspetos relacionados com a “forma” das aves, contemplados pela morfologia, indicam que a possibilidade de transmissão hereditária nesses casos decorre de ações poligénicas, ou seja, onde diferentes pares de genes atuam de maneira associada na direção de promover a expressão de um determinado aspeto físico. Deste modo, para que esses aspetos relacionados com a forma do pai e/ou da mãe possam ser manifestados fisicamente também na prole, é necessário que o grupo de genes responsáveis pela expressão da referida característica seja herdado integralmente, sem fragmentações.

A pergunta que surgiria nesse momento seria: Como, então, garantirmos que esses referidos grupos de genes sejam herdados integralmente? A resposta a essa pergunta, infelizmente ainda não se encontra definida, e por uma razão bastante simples: os genes que compõem essas associações, bem como também a maneira como as mesmas estão estruturadas, ainda são desconhecidas pela ciência. Contudo, embora muitas vezes o criador se torne refém dessa condição, o mesmo tem nas suas mãos uma poderosa ferramenta que lhe pode ser de grande utilidade na direção de superar o desafio de “dominar” as ações morfológicas: o desenvolvimento e aperfeiçoamento contínuos da sua capacidade de observação e análise das características desejáveis num bom exemplar, ou seja, a referida acuidade técnica visual já citada no início do texto, popularmente chamada de “olho bom”. Existe, no entanto, um grande erro no momento em que se estigmatiza essa condição como algo “inato” ou definitivo. Como toda e qualquer habilidade, por mais que possa também compreender uma maior ou menor naturalidade no seu domínio, certamente sempre se mostrará passível de aperfeiçoamento através da prática. Voltando então à questão da relação “criador-morfologia”, como poderíamos então encontrar um controlo sobre as ações morfológicas? Pois bem, contextualizando a pergunta a tudo o que foi exposto até aqui, podemos construir algumas conclusões e, a mais importante delas é que: “ - Embora não conheçamos quais sejam os genes responsáveis pelas ações morfológicas podemos, contudo, identificar o resultado das suas ações e, dessa maneira, criarmos condições que possam propiciar uma maior probabilidade de que elas ocorram com maior frequência”. Pessoalmente costumo chamar esse processo de “identificação visual por amostragem e agrupamento em famílias”.

Quando conseguimos identificar claramente numa ave determinadas características as quais desejemos intensificar e disseminar num plantel, a melhor (...e talvez a única, eu diria...) maneira de fazê-lo seria acasalando essa ave com outra que também apresente esses aspetos físicos desejáveis, ou ao menos parte deles. Todas as vezes que realizamos esse tipo de ação, estaremos, na realidade, “selecionando” aqueles grupos de genes responsáveis pela expressão da forma da ave, mesmo que não saibamos ao certo quais sejam eles, potenciando, dessa maneira, as hipóteses dessas mesmas associações genéticas poderem também ocorrer na prole.

Embora a linha de raciocínio a ser adotada se mostre relativamente simples, na sua aplicação prática, iremos constatar que em muitas situações não conseguiremos obter os resultados esperados, ou então os mesmos poderão apresentar-se mais evidenciados na primeira geração e gradualmente se irem descaracterizando nas gerações subsequentes. Outra condição comum de ser encontrada é o facto de uma ave efetivamente apresentar boas características, porém aparentemente não conseguir “marca-las” na sua descendência. Em ambos os casos, a provável causa pode estar relacionada com a fragmentação do referido grupo de genes. Essa fragmentação decorre basicamente de dois fatores: 1º - o facto da referida ave que apresenta as boas características tê-las herdado também de maneira fragmentada e, como tal, ter uma maior tendência de também retransmiti-las dessa maneira; 2º - um dimensionamento errado dos acasalamentos nas gerações subsequentes.

O processo de selecionarmos as aves que apresentem as características com as quais desejamos trabalhar e acasala-las com uma outra ave também previamente selecionada a partir dos mesmos parâmetros, justamente na direção de potencializarmos as hipótese da transmissão das mesmas para a prole, deve ser feita sempre alicerçada num rigor técnico crescente. Agindo dessa maneira, poderemos, gradualmente, geração após geração, construirmos famílias que agreguem, de maneira cada vez mais eficiente, todos os diferentes grupos de genes responsáveis pelas inúmeras ações morfológicas, aglutinando-os de tal forma que possam cada vez mais estar presentes de maneira conjunta num mesmo gâmeta, garantindo dessa maneira a sua transmissão e fixação na hereditariedade. Essa ação direcionada permitirá ao criador, após sucessivas gerações conduzidas a partir dos mesmos critérios técnicos, além da homogeneização do plantel, também a possibilidade de imprimir características próprias nas suas aves.

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