PERIQUITOS ONDULADOS - Mutações Recessivas: Vilãs ou Vítimas?

Autor: Fúlvio Lucietto

Publicação: 17-08-2017

A capacidade de se adaptar e de resolver problemas garantiu ao homem a manutenção da espécie no decorrer das diferentes fases do seu processo evolutivo. Os mecanismos que lhe permitiram transpor todos os obstáculos surgidos nessa trajetória foram elaborados e desenvolvidos por ele mesmo através da experimentação prática e da observação e análise dos resultados obtidos. Até mesmo os notórios avanços científicos e tecnológicos, dos quais usufruímos na atualidade, tiveram os seus conceitos primordiais alicerçados no conhecimento empírico construído a partir de longos processos práticos de tentativa-erro. Contudo, novos desafios e necessidades surgem a cada dia tornando imprescindível a existência de uma contínua rotina de pesquisas e experimentações com o objetivo de se tentar construir novas soluções e conclusões ou, até mesmo, reformular aquelas já existentes.

Os processos que envolvem a elaboração e construção do conhecimento mostram-se naturalmente dinâmicos e abrangem absolutamente todas as áreas do conhecimento humano. Assim sendo, também no meio da criação de periquitos voltada para o aprimoramento genético, os efeitos desse fenómeno mostraram-se presentes e, não só no Brasil, mas em todos os centros de criação do periquito em todo o mundo.

Inserida num contexto onde o conhecimento a respeito dos mecanismos genéticos da espécie eram ainda incipientes, a criação do periquito ondulado voltada para o aprimoramento genético inclinou-se naturalmente na direção das perspetivas que contemplavam as primeiras mutações surgidas em cativeiro cujo comportamento hereditário eram alicerçados nos pressupostos da primeira e segunda leis de segregação dos genes elaboradas por Gregor Mendel.

Ao contrário do que ocorre na natureza, onde um exemplar mutante está destinado a ser mais facilmente predado, precisamente por ter a sua capacidade de camuflagem bastante diminuída, em cativeiro o surgimento de um exemplar mutante era a garantia de que aquele indivíduo seria especialmente bem cuidado e valorizado. As diferentes possibilidades de cores que as mutações proporcionavam ao periquito ondulado tornavam-se objeto de desejo de todos os criadores. O ímpeto em se produzir periquitos com cores diferentes tornou-se o grande objetivo da criação em cativeiro. Com o passar dos anos outros aspetos relacionados com essa ave também começaram a ser observados pelos criadores como, por exemplo, as características que envolviam outros tipos de penas, forma, tamanho e proporções. A partir de processos de seleção visual que contemplavam esses outros aspetos, o periquito ondulado foi sofrendo gradualmente uma grande metamorfose e, através de várias gerações, foram surgindo exemplares cada vez mais exuberantes quanto à sua forma, tamanho e qualidade de penas. Contudo, como costumava dizer com sabedoria o meu saudoso amigo e ornitófilo senhor Nelson Kawall, “...o que popularizou o periquito no mundo foi a sua enorme gama de possibilidade de cores e não a sua forma...” . E ele estava certo. Por mais que tivessem surgido outros objetivos para os criadores de periquitos relacionados com possibilidades de exemplares de diferentes “tipos” e “estilos”, a paixão pelas cores já estava, de maneira justa e compreensível por sinal, definitivamente enraizada no cerne da criação desta espécie.

Fulvo face dourada cobalto

A busca pelo desenvolvimento de exemplares maiores, com penas mais longas e melhores proporções, veio, então, desenvolvendo-se num contexto onde o interesse e a valorização dos mutantes visuais certamente sempre tinham sido o principal objetivo da criação da espécie. Nesse cenário, naturalmente começou-se a construção de duas vertentes na criação do periquito em cativeiro: Uma que dava prioridade às cores e outra que privilegiava a forma das aves. Entretanto havia um certo consenso em relação a uma possibilidade que agradava a ambas as partes: Por que não produzirem-se exemplares que reúnam simultaneamente lindas cores e forma exuberante? Possivelmente a partir desse momento se tenha iniciado a construção de um dos conceitos mais errados na criação do periquito em cativeiro, mas que foi disseminado por todo o mundo: “- As mutações autossómicas recessivas geram aves menos elaboradas.”

Apesar de tecnicamente se mostrar errado, esse conceito tem fortes razões para ter sido construído, as quais estão diretamente relacionadas com o processo natural de construção do conhecimento em todas as áreas do conhecimento humano: A observação prática e análise dos resultados obtidos. O conceito construído e disseminado não tinha surgido da imaginação das pessoas, mas sim da efetiva observação prática dos resultados obtidos. Na atividade prática dos criadores, exemplares maiores, com penas mais longas e melhor forma eram acasalados com mutações visuais e o resultado obtido mostrava claramente uma perda nas características relacionadas com a qualidade das penas das aves. O erro, no entanto, não estava na constatação dos resultados obtidos mas sim na associação da visível perda de qualidade com a utilização de um exemplar de mutação recessiva.

Assim como o mencionado no início desse texto, a pesquisa e a experimentação contínuas permitem à ciência a descoberta de novas possibilidades e a construção de novas conclusões que, muitas vezes, terminam por reformularem conceitos anteriormente construídos. A explicação técnica para a condição descrita no parágrafo anterior mostra-se como um bom exemplo para ilustrar essa relação. Como contestar algo que vinha sendo observado claramente na prática, não apenas por um ou dois criadores, mas por muitos deles? A resposta a essa pergunta encontra-se na contextualização do fenómeno observado a meio do processo no qual ele está inserido. Foram basicamente dois aspetos extremamente relevantes que contribuíram de forma definitiva para a construção de tal erro:

- O primeiro, o não conhecimento dos mecanismos genéticos relacionados com a elaboração da forma da ave, uma vez que ainda não existiam estudos nem documentação nesse sentido e o conhecimento existente estava diretamente relacionado com as perspetivas da genética relacionada com as diferentes cores das mutações (Leis de Mendel);

– O segundo aspeto, e que deriva do primeiro, a não contextualização dos resultados obtidos com todo o processo inicial da criação do periquito em cativeiro, onde o foco principal sempre esteve voltado para a produção de mutações visuais.

Asas cinzentas azul celeste

Todo esse, aparentemente, “processo complexo” pode ser sintetizado e entendido a partir de uma explicação relativamente simples: Os mecanismos genéticos responsáveis pela produção das diferentes cores do periquito ondulado (basicamente produção de melaninas e pigmentos) mostram-se de modo diferente daqueles responsáveis pela promoção da “forma” da ave. Enquanto a produção de melaninas e pigmentos é determinada pela ação isolada de cada um dos genes específicos para essa função, os quais já foram devidamente identificados e descritos quanto ao seu comportamento na hereditariedade e, como tal, permite-nos traçar projeções reais quanto às perspetivas dos resultados a serem obtidos, os processos de elaboração das formas e tipos de penas do periquito são promovidos por ações associadas de uma série de diferentes genes (poligenia), onde tanto os genes que as compõem quanto a maneira como interagem ainda são desconhecidas pela ciência, facto esse que, obviamente, nos impossibilita de traçar perspetivas matemáticas para os resultados esperados. Dessa maneira, enquanto para que se produzir uma determinada cor basta que o criador faça a associação matemática dos genes responsáveis por cada uma das mutações, para se obter a “forma” desejada é necessário um árduo trabalho de seleção visual e o acasalamento das aves selecionadas entre si durantes muitas gerações.

O que aconteceu no contexto prático da história desse processo todo foi que o foco na produção de mutações visuais terminou negligenciando completamente a observação das possibilidades das formas das aves. Essa condição, após décadas de aplicação prática, resultou numa considerável distância morfológica entre os exemplares que tinham sido submetidos aos processos de seleções visuais relacionados com a forma (morfologia) adquirissem uma condição muito mais elaborada do que aqueles que não tinham passado por esse processo, no caso, os exemplares que foram destinados apenas à produção de cores. Obviamente, após décadas de seleção genética, quando eram confrontados os exemplares com melhores formas com os exemplares utilizados na produção de mutações visuais, o que acontecia era um flagrante retrocesso na forma da ave, porém não em razão do facto das mesmas serem mutações visuais, mas sim por não terem sido submetidas ao longo e árduo processo de seleção morfológica pelo qual as várias gerações anteriores dos exemplares mais elaborados já tinham passado.

Amarelo Cinzento

Até hoje a utilização de mutações recessivas é erradamente considerada muitas vezes “inapropriada” em criadouros onde o foco esteja voltado para o melhoramento genético da forma da ave. Seriam essas mutações verdadeiramente vilãs? Não. Elas são sim vítimas de um processo seletivo negligente, que durante décadas deu prioridade à produção de mutações visuais em detrimento da busca pelo aprimoramento da forma da ave.

*Mutações Recessivas são aquelas cujos genes responsáveis pela sua expressão tem a sua ação inibida quando confrontados com o gene nativo (selvagem ou não-mutante).Quando o gene recessivo responsável por uma determinada mutação está localizado nos pares de cromossomas homólogos (equivalentes ou iguais) eles são denominados “autossómicos recessivos” (Asas Cinzentas, Asas Claras, Amarelos e Brancos, Fulvos, Arlequins Recessivos). Quando o referido gene recessivo se encontra no cromossoma sexual é denominado “alossómico recessivo” (Canelas, Albinos e Lutinos, Opalinos, Corpos Claros do Texas, Ardósia).

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