Os julgamentos no BOS Portugal 2018

Autor: José Paulo Correia

Publicação: 13-10-2018

Os julgamentos de aves, apesar das regras existentes, não são uma ciência exata e dependem tanto do comportamento da ave no momento em que o juiz a avalia como do próprio estado de espirito do juiz no momento em que está a fazer a avaliação das aves. Existem muitas variantes que condicionam o julgamento para além da qualidade das aves que estão a ser avaliadas.

Daí a importância dos julgamentos com assistência em que os criadores entendem as opções que o juiz vai tomando ao longo do julgamento para chegar ao resultado principal que é o apuramento da melhor ave. A classificação de uma ave em segundo lugar na sua classe implica a sua eliminação para os processos de escolha das melhores aves por grupos de cores e para a melhor ave da exposição. Essa eliminação pode ser determinada por um pormenor no momento do julgamento da ave e que pode não ter razão aparente após alguns momentos. Quantas vezes, a ave no momento do julgamento, mesmo com toda a paciência do juiz para que se mantenha calma, ela insiste em ter um péssimo comportamento e, passadas umas horas, se encontra serena e bem posicionada na gaiola de exposição. Nas exposições com assistência o juiz vai dando a sua opinião e justifica o modo como vai atuando. Isto não quer dizer que os criadores concordem com o juiz mas assim conseguem entender como se chega ao resultado final. Se o julgamento dos periquitos de forma e posição teve uma plateia razoável, nos periquitos de cor a assistência era muito pouca, embora seja a secção em que a classificação seja decidida através de mais pormenores. Com este tipo de julgamento, as críticas ao resultado final sem se ter acesso a todo o processo que levou ao resultado final, são críticas pouco fundamentadas e maioritariamente entendidas por críticas maliciosas.

Com mais ou menos classes, o expositor deve entender que os prémios importantes são as melhores aves por grupos de cores que são apurados entre os primeiros classificados da classe ou classes que compõem o grupo. A partir das melhores aves dos grupos são apuradas as melhores aves da exposição, estando neste conjunto de aves, aquelas que são distinguidas nestas exposições, onde os segundos de cada classe e seguintes classificados deixam de ter importância dentro do grupo das melhores aves.

Numa exposição com muitas aves de qualidade são os pormenores que podem fazer diferença entre as aves.

Nos periquitos de cor, as aves são mais homogéneas e os pormenores assumem ainda mais importância, já que a forma das aves tem menos variantes. Este ano foi notada uma quantidade razoável de aves não adultas. Para além da própria plumagem ser diferente das aves adultas, existem alguns fatores que não estão de acordo com o standard. Um desses casos é a cor da cera, que não corresponde à descrição do standard, especialmente nos machos. Outro caso é a cor dos olhos, já que no standard da maioria das variedades os olhos têm uma íris branca e isto só acontece na idade adulta das aves. Se nas aves de forma e posição as aves demasiado jovens são penalizadas pelo tamanho, já que são mais pequenas, nas aves de cor, o tamanho entre os 17 e os 18 cm constante no standard é mais fácil de atingir em aves jovens. O Juiz optou por não dar prémios a aves nestas condições ou pelo menos não lhes atribuir os três primeiros lugares na classe por estarem fora do standard, ficando assim fora das opções para os prémios principais.

A preparação das aves é muito importante para os julgamentos. Em muitos países, apresentar aves a julgamento que quando esvoaçam espalham pó por todo lado, evidenciando falta de higiene da ave, ou as aves expostas em gaiolas sujas, é considerado falta de respeito para com os juízes e organização, não se julgando essas aves. Este ano havia algumas aves nestas condições. Não custa nada dar um banho regularmente às nossas aves e muito menos um ou dois, uns dias antes da exposição. Quanto às gaiolas houve criadores que deram a entender que elas são usadas apenas nas exposições, ou seja, antes da exposição coloca-se o pássaro, depois da exposição retira-se o pássaro e a coisa repete-se durante anos, sem uma única limpeza, trazendo até os autocolantes da exposição anterior. Se a organização se preocupa em colocar as gaiolas em locais limpos e atraentes, existem criadores que colocam boas aves em gaiolas mal cheirosas e sujas. Na maioria dos concursos as aves apresentadas nestas condições não são julgadas. Uma ave para ser apresentada a concurso deve ser preparada para tal, tanto através de treino de adaptação ao local como em termos de higiene da ave e da gaiola onde é colocada. No caso dos Periquitos de Forma e Posição é necessário arranjar os spots, sendo penalizadas as aves não arranjadas. Muitas vezes aves mal preparadas nos spots ou mal habituadas às gaiolas de exposição ficam mais mal classificadas do que outras aves de menor qualidade mas mais bem apresentadas porque numa exposição todos os pormenores contam.

E porque todos os pormenores contam numa exposição, uma ave bastante inferior para criação pode ganhar numa exposição a uma ave com menor qualidade em termos de criação. Uma ave pode ter muito boas características mas se não estiver em perfeita condição dificilmente ganhará uma exposição. Um boa condição para exposição implica a plumagem completa, posição adequada no poleiro, spots bem arranjados quando aplicável e comportamento exemplar na gaiola de exposição. Por isso, críticas aos julgamentos feitas à posteriori raramente devem ser levadas a sério, já que nos julgamentos aquilo que acontece no momento do julgamento não é estático e só quem lá esteve pode saber o que se passou. Por isso, a menos que hajam erros grosseiros, como erros nas classes e juízes a não conhecerem as variedades ou os standards, ou nos periquitos de cor não penalizando o excesso de tamanho em relação ao standard, ou quando os juízes estão só a «despachar serviço», só criticam os juízes aqueles que não têm o mínimo conhecimento do que criticam.

Para terminar deixo um comentário do Luís Ciríaco sobre os julgamentos dos periquitos de forma e posição.

“Muito mais importante do que falar sobre o que correu melhor ou pior é falar sobre o que foi realmente importante. O CPCPO trouxe a Portugal nada mais, nada menos do que um dos maiores criadores do Mundo para julgar as nossas aves: Daniel Lütolf! Sabendo eu que o estilo das suas aves é diferente do estilo de aves que eu crio, rapidamente me mentalizei que este ano teria menos possibilidades de ganhar. Pensamento esse que vim a descobrir estar muito errado. Pois é, para o Daniel Lütolf, o criador de aves super grandes com penas super longas, super cabeças, etc., coloca à frente de tudo isso a harmonia da ave e escolhe para Best in Show uma ave relativamente pequena, pena curta, cabeça nada exuberante mas uma ave super equilibrada e harmoniosa que, para felicidade do José Brázio, era dele. Se era a ave que eu e a maioria pensava que iria ganhar, claramente que não, mesmo sendo eu um defensor do equilíbrio e harmonia no periquito inglês. Mas tendo sido essa decisão tomada pelo Daniel Lütolf e depois de ouvir todo o julgamento e coerência do mesmo e todas as explicações concordei a 100%. Fosse esta decisão tomada por qualquer outro juiz, tenho a certeza que seria contestada por muitos como é costume... Resumo da história: o que tem de ter um bom periquito de exposição? Equilíbrio e harmonia.“

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